terça-feira, 11 de dezembro de 2007

5 minutos de Bússola Dourada



Para curiosos de plantão, aqui estão os primeiros 5 minutos do filme A Bússola Dourada, que estreiará no dia 25 desse mês.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Os Livros da Magia

Neil Gaiman! Nunca um escritor me surpreendeu tanto quanto esse homem de cabelos negros e desgrenhados, que só pensa em misticismo, fadas e duendes. Desde seu romance Coraline, tenho mudado muito meu ceonceito sobre como ver o mundo fantástico; talvez o que mais tenha me agradado fora o modo sombrio e sinistro de contar histórias, onde o terror permanece ali, atrás daquele arbusto ou se esgueirando para debaixo da cama.

O que era apenas um namoro, se tornou um noivado após ler a graphic novel Os Livros da Magia, que trata da história de um menino comum que descobriu de um dia para o outro que poderia ser o maior mago do mundo. E as coisas não param por aí, para que ele pudesse decidir por qual caminho trilhar, recebe o auxílio de quatros estranhos guardiões: John Constantine, Dr. Oculto, Mister E e o Vingador Fantasma; detalhe é que alguns destes são velhos conhecidos de amantes de HQs. Esses guardiões, já poderosos magos, guiam o pobre Timothy Hunter através do futuro, do passado, do presente e até em outros planos exóticos, como o Mundo das Fadas. É com o decorrer da história que o mundo da magia vai sendo desvendado e modelado, surgindo tanto elementos bons quanto ruins; na verdade é difícil concluir que esse mundo possa ter mais valor, ou beleza, que o nosso.

Lançada pelo selo Vertigo em 1991, a mini-série é dividida em apenas 4 partes. Cada parte foi ilustrada por um artista diferente: John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson. Todos grandes desenhistas que conseguiram captar a essência do fantástico obscuro apresentado na trama. Segue o link com o download da série:

Fórum Anime AG Network (com download das 4 edições)

Vale lembrar que apenas Os Livros da Magia - Volume 1 é da autoria de Neil Gaiman, sendo os outros de autores e desenhistas diversos, mas é claro que estes não deixam de valer a pena também. Aceitando a sugestão e o argumento de um curioso anônimo, talvez coloque aqui V de Vingança, outro clássico das HQs que de fato não deixa de ser fantástico. Até a próxima!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

300

Impressionante, pela primeira vez neste blog eu postarei algo sobre quadrinhos, uma das minhas paixões. É claro que os que colocarei aqui serão apenas os ligados diretamente a fantasia, portanto nada de Watchmen ou V for Vendetta. Para dar início, nada mais plausível que postar o quadrinho sobre os memoráveis espartanos de Frank Miller, história que na minha opinião só perde para a originalidade de Sin City.

300 conta a história do rei Leônidas, que ao convocar seus trezentos melhores homens, enfrenta a invasão do descomunal exército pérsia, liderado pelo rei Xerxes, dando início a famosa batalha das Termópilas. Com um roteiro bem esquematizado e belíssimos desenhos, Frank Miller consegue prender o fôlego de qualquer leitor, do início ao final. Ainda que a história apresentada nessa graphic novel não retrate exatamente como a ocorrida em 480 a.C., ela vale a pena cada quadrinho.

Abusando de cortes, texturas, silhuetas e expressões de movimento, Miller dá aos combates um tom de ultra violência e ferocidade. O seu trabalho sempre foi muito elogiado quanto ao design arrojado de suas páginas e a força da sua composição. Acaba que o conjunto da página ganha o leitor e não apenas o desenho em si; detalhe que as páginas são duplas, transformando a leitura tradicionalmente vertical em horizontais. Um trabalho audacioso de um escritor mais audacioso ainda. Vale a pena conferir!

Fórum Anime AG Network (com o download das 5 edições)

E antes que me esqueça, é recomendável usar o programa CDisplay para obter uma leitura mais agradável! Aliás, para quem curte Neil Gaiman, em breve vou disponibilizar algo sobre a sua série Os Livros da Magia. Até mais!

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Como ser publicado?

Mais que matar dragões, salvar o mundo de um tirano ou destruir um anel mágico, ser publicado atualmente é um dos maiores desafios enfrentados pelos escritores. A maioria destes encontra as portas de grandes e médias editoras fechadas, precisando recorrer a "auto publicação" como um meio de conquistar um espaço nas prateleiras das livrarias; é claro que esta não é a única solução e muito menos a mais barata.

Escritores de fantasia sofrem com a falta de compromisso das editoras em ler o material enviado, na verdade poderia dizer que sofrem em dobro, pois infelizmente o gênero fantástico não é considero muito vendável no nosso páis. Algo que chega a ter contraste com o enorme número de apreciadores de fantasia, bem como RPGistas e outros leitores. Talvez o que torne o gênero inviável seja o fato de que o povo brasileiro não tem o costume de ler livros, ou talvez isso só seja uma parte de uma cadeia de problemas.

Para tamanha crise, há diversas soluções. Uma delas, como já citei, é se auto publicar, mas é um método que sai caro e muitas vezes não chega a valer a pena, afinal, não há publicidade e a distribuição pode depender apenas de você. Outra dica, enfatizada pelos editores, é conseguir uma referência de algum escritor famoso ou de um figurão qualquer, nesse caso são necessários contatos e não é qualquer um que pode tê-los tão facilmente. Por fim existem os casos de pessoas que conseguiram se dar bem com publicações em outros países, esse é um processo que não sai muito barato, pois além de uma pesquisa a fundo no target estrangeiro, é aconselhável o emprego de algum tradutor confiável.

O caminho para ser escritor é doloroso, mas para quem o deseja com corpo e alma, pode gerar belos frutos. E é dessa forma que posso apresentar o testemunho de um escritor brasileiro que hoje em dia pode ser considerado best-seller, mas que em outrora fora tão importante quanto eu ou você. Encaixo aqui o relato de André Vianco, famoso por seus livros de fantasia com teor vampiresco, que precisou se auto publicar para mais tarde assinar um contrato com a sua atual editora Novo Século:

Uma porção de coisas...

Sobre as editoras, também já perdi a conta de quantas cartinhas dessas eu recebi na vida. Tá certo que hoje é diferente, não que haja editoras disputando a tapa o que eu escrevo, mas estou certo que caso quisesse mudar de casa editorial seria um processo bem mais confortável do que há quatro anos. O começo não é fácil numa série de áreas, na literatura então, chega a ser quase que proibitivo. Sério! Quem aqui já chegou com a cara e coragem em casa, para os pais, familiares e amigos e disse, serei um romancista, um escritor? Serei roteirista. Faça isso, pai e mãe podem achar bonitinho e vão te apoiar com um sorrisinho amarelo na sala, mas, a noite, no quarto do casal vão trocar fuxicos e tentar descobrir quem foi que botou essa idéia doida na sua cabeça, vão trocar acusações e tal e coisa. Podem amar a idéia, claro, ser escritor e viver disso é glamouroso, há toda uma fantasia ao redor dessa profissão. Mas seus pais vão pensar: e se ele resolver casar? Como vai sustentar a casa?

Pois é, o melhor conselho que dou a vocês é, se querem ser escritores de verdade e viver disso, então não desistam nunca. Primeiro, para começar você vai precisar, sim, ter outro trabalho para se manter ou manter a família. Não tem jeito. Ninguém fica milionário do dia pra noite vendendo livros ou ganhando direitos autorais no ramo da literatura (é claro que existem as exceções a regra, as Brunas Surfistinhas e sucessos instantâneos, que costumam ser bem efêmeros. Alguém ai lembra da Mônica Bonfiglio, o tal do Paes do Angus e mais um bom número desses nomes que vem e que vão?). Essas cartas negativas das editoras não vão parar de chegar. Se vier um “sim” no caminho agarre-se a ele como um náufrago se agarra a um bote, mas cuidado, algumas editoras são bóias cercadas de tubarões por todos os lados.

Comece a poupar um dinheirinho. Vai guardando um pouco por mês. Uma hora você vai perceber que para os editores você não é nenhum gênio brilhante e vai começar a duvidar de você mesmo. Então poupe grana e publique por conta antes que você desista de você. Lembra do que falei no começo? Nunca, nunca desista. Bem, tratem também de uma realidade delicada. Sê sincero contigo. Seu texto é bom mesmo? Você tem talento? Pode não ser um primor, mas seu texto tem que incendiar alguém tem que fazer a pessoa ficar colada no livro ou despertar reflexões interessantes que a leve até o fim da história. Se sua história é chata, reescreva. Submeta seus livros aos amigos. Depois peça que eles levem o livro para pessoas que gostem de ler, mas que nunca te viram mais gordo. Não precisa vencer todos, mas tem que arrancar admiração da maioria. Não superestime seu texto. Isso atrapalha. É bom achar críticas antes de chegar aos editores e editoras. Você vai dar uma esmerada no texto, vai tentar enxergar onde errou. Agora, se trinta em trinta amigos inventarem uma desculpa cabeluda ou esfarrapada para não ler o seu livro, mau sinal. Ser talentoso é crucial para ajudar no começo. É claro que um em um milhão nascem prontos, são fantásticos e irretocáveis nas primeiras linhas. Não é o meu caso. Talento para ser um contador de histórias eu tenho de sobra, mas até aceitar cá comigo que sou um grande escritor, acho que demora um pouquinho.

Dou-me com o trato do texto, adoro revisar, melhorar o que está escrito, mas erro as pencas, difícil acertar uma crase (pode? acho que é defeito de fábrica), mas não me encolhi diante desse obstáculo e hoje escrevo muito melhor do que no começo, é um processo natural vindo do estar todo dia sentado ao teclado, inventando, narrando, trabalhando, suando, lendo, aprendendo, escutando os outros escritores que deixaram obras alucinantes para todos nós (estou pela enésima vez lendo Os Miseráveis, de Victor Hugo). Esse lance do talento versus técnica pode ser bem percebido no meu debute “Os Sete”. Está lá, o que poderia ser um fiasco tornou-se um bestseller. Agora, se não tiver talento para escrever, trata de descobrir rapidão para que o seu talento serve. Eu acredito muito nisso, cada um tem um talento, um dom natural. Seja para fazer salgados para festas, encontrar curas para doenças complexas, viajar até a lua, tecer redes. Lembra do que falei? Nunca desista. Não ser escritor e ser outra coisa não significa desistir, significa poupar seu tempo e ser mais feliz. Outra coisa, não ser publicado por uma editora grande também não quer dizer que você não é escritor. Sem escritor não tem nada a ver com quantos livros você já escreveu, quantos publicou, quantos leitores você tem ou quantos e-mails recebe por dia. Isso tudo é perfume, fogos de artifício. Ser escritor está no coração. Ainda me considero um escritor amador, amador até morrer. Antes de investir os tubos numa publicação independente, estude o mercado. Vender pela Internet (crucial hoje)? Quando eu comecei esse lance de ser escritor não existia orkut, eu nem tinha e-mail em 2000. Abri uma conta exclusivamente para colocar um email de contato no fim do livro. Colei etiquetinhas em cada um dos mil exemplares e em menos de um mês recebi o email da primeira leitora. Cara, que sensação! Era um e-mail genuíno. Não conhecia a menina, do Alphaville, que tinha pirado o cabeção lendo "Os Sete".

Lembro que no final de 99 eu fiz um curso de “Como publicar seu livro”, ali no finalzinho da avenida Paulista, numa livraria tradicional do pedaço. Lá aprendi o que era ISBN e que ele era indispensável na quarta capa do livro. Sem ISBN nada feito.
Perca um tempo pensando numa boa capa. A capa de meus livros atraiu muitos leitores. Tenho até hoje uma boa relação com o cara que fez minha primeira capa, o Christian Pinkovai (www.christianpinkovai.com). A briga mais feia que tive na editora foi para que eu escolhesse a capa do trabalho e que ela fosse feita pela Christian. Esse negócio de amizade ainda existe em alguns recantos do mundo dos negócios. Dizem que não se deve julgar um livro pela capa, pois é.
Agora, Ana Carolina, nada disso. Nada de mudar o nome para Annie. Você é brasileira, não desiste nunca (hahahahahaha). Você, sinceramente, acha que vai ser muito diferente mandando seus livros para fora? Não creio que as mesas das editoras estrangeiras estejam as moscas ou ao menos com um espaço vazio esperando “novidades do Brasil”. Não senhora. O fenômeno das “pilhas de baboseiras” deve se repetir mundo a fora. Trabalhei alguns meses como consultor da Novo Século. Senhora! Quanto livro! Chega um monte todos os dias. Por isso que o processo é injusto. Os livros vão se amontoando. Alguém lê algumas linhas e se não gostar na primeira página, sabe aquela pilha das baboseiras? Então. Por outro lado vocês precisam entender que as editoras, apesar de atuar no ramo da cultura, são geridas por empresários que querem perceber certo lucro no final das contas. Não, não é um mercado fácil. Não é mesmo.

Não estou aqui querendo destruir o sonho de ninguém. Muito pelo contrário, só quero deixar certos mecanismos claros para que você lute com mais preparo. Os olheiros das editoras que ficar de queixo caído na primeira página. Se entender e gostar do seu livro, vão ler mais duas páginas. Se gostarem das cinco primeiras é possível que mandem para alguém da área ler e opinar (sem misericórdia). Não mude seu nome. Existem leitores para você no Brasil. Arregace as mangas e encontre-os e esfregue-os na cara dos livreiros. E sobre o que a Ana e o Daniel falaram, traduzir para arriscar em outro mercado, acho que a grana que você vai gastar com um tradutor juramentado, descente, é suficiente para produzir seu livro direto numa gráfica aqui no Brasil e começar seu trabalho. O Daniel mostra um pensamento interessante. Procurar editores pequenos, com catálogos pequenos e que estejam começando. Meu lance com a Novo Século começou mais ou menos assim. Na verdade eu já tinha desistido das editoras quando publiquei Os Sete e, um ano depois, publiquei Sementes no Gelo. Aconteceu da editora Novo Século ter uma loja em um shopping e ver Os Sete vendendo bem demais para um autor estreante e, ainda por cima, independente. Naquele momento eles estavam começando a editora e tive o prazer de ser o primeiro escritor da casa. Quando passei na loja para fazer a reposição mensal, recebi um cartão do gerente, dizendo que queriam falar comigo. Fui até sem dar muita bola... e sai com um contrato assinado. Adiantei meus planos em cinco anos! Ai vem mais um ponto importante: tenha um plano! Começa a soar aquelas coisas de auto-ajuda (recomendo A mágica de pensar grande – David Joseph), mas é sério. Tenha um plano, um caminho que você quer traçar. Faz toda diferença. Quando eu sentei a mesa do editor Luiz Vasconcelos eu tinha um plano, eu sabia onde eu ia chegar. Expliquei que tinha esse e aquele livro publicado, vendendo de loja em loja, mas que tinha mais dois romances escritos (O Senhor da Chuva e Sétimo) e que tinha idéias desenvolvidas para mais 20 romances naquele estilo. Se você quer viver de escrever, tenha uma porção de idéias e escreva vários livros. Os editores vão gostar de ouvir isso. Quando você for chamado para um encontro, um almoço com um possível editor, converse tranqüilo com ele, prepare sinopses de alguns trabalhos, eles estarão justamente para ouvi-los, é o seu momento. Se não estiver confiante pelo menos parece confiante.

Nosso colega Saint-Clair também está correto quando fala da distribuição. Esse é um gargalo que dificulta muito as coisas. Avalie muito bem a editora antes de assinar um contrato se quiser ver seu livro nas prateleiras do país todo. Não será prepotência de sua parte rejeitar um contrato. Quando você assina você aliena seus direitos por coisa de 5 anos. Tente baixar esse tempo no seu primeiro contrato. É normal fazer um primeiro contrato por 2 anos. Tente isso. 2 anos é tempo mais que suficiente para conhecer na prática sua editora. Outro lance legal é conseguir um contato de um escritor da casa. Isso fará seu livro pular do fundo do poço das sombras para a mesa de um editor. Não significa necessariamente que será publicado, mas já ajuda muuuito!

Testemunho retirado de um tópico de discussão da comunidade Escritores de Fantasia, que abordava justamente o assunto. Para quem leu, fica a experiência vivida por mais um ex-membro do clube dos não-publicados, mas para todos fica a "boa sorte" e o tapinha nas costas tão merecido aos escritores que nunca desistem e sempre seguem de cabeça erguida.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

A Lenda de Beowulf



Já que estamos no clima de épicos, nada como dar uma boa olhada no filme A Lenda de Beowulf, a quarta adaptação do poema épico escandinavo para os cinemas. O filme, que demorou cerca de 10 anos para ser adaptada pelas mãos de Neil Gaiman e Roger Avary (co-roteirista do filme cult Pulp Fiction), conta a história do poderoso guerreiro Beowulf, que ao enfrentar o temível demônio Grendel, desperta a fúria de sua mãe, que passa a protagonizar então uma sangrenta batalha épica. O épico é uma das obras mais antigas da língua inglesa, contada por cerca de 700 anos apenas na forma oral por bardos e registrada como poema por monges séculos atrás; o manuscrito com a história original só foi encontrado no século 16. O mais ousado nesse filme é a tecnologia utilizada, já que a técnica é a mesma que o diretor Robert Zemeckis usou em O Expresso Polar.

Uma matéria mais completa sobre o longa pode ser encontrada no site Omelete. Até a próxima!

domingo, 18 de novembro de 2007

Gilgamesh

Antes da Odisséia de Homero, antes das histórias egípcias, vindo do tempo dos sumérios, veio o quase imortal Gilgamesh, o guerreiro que através de 12 simplórias tabuletas de argila conseguiu vencer as barreiras do tempo e se tornar a primeira história escrita da humanidade. A Epopéia de Gilgamesh foi escrita em sumério cerca de 2.600 a. C. As tabuletas com as inscrições em cuneiforme (escrita desenvolvida pelos habitantes da Mesopotâmia) sobreviveram muitos séculos e foram encontradas entre 669 e 626 a.C. na biblioteca particular de Assurbanipal.

Gilgamesh foi um rei e herói legendário da cidade-estado de Uruk, Mesopotâmia (região onde hoje se encontra o Iraque). De acordo com a lista dos reis sumérios, Gilgamesh foi o quinto rei de Uruk, da primeira Dinastia, filho de Lugalbanda. Diz a lenda que ele era 2/3 deus e 1/3 humano, e por isso era capaz de grandes feitos sobre-humanos. Na história Gilgamesh precisa enfrentar um ser feito à sua réplica, chamado Enkidu. Ele é o deus da vegetação, um humano sem a marca da humanização. Após uma luta de força, tornam-se amigos e viajam enfrentando perigos e vivendo várias aventuras.

O verso da obra é feito em metro único e possui uma forma narrativa. A métrica, de verso heróico, é construída com vocábulos raros e metafóricos; outro detalhe é que não há limite de tempo. A estrutura é composta pelo reconhecimento, as peripécias e as catástrofes, uma típica aventura de grandeza épica. Existem fontes que apontam que Hércules, da mitologia greco-romana, foi baseado nele.

É de clara importância o épico de Gilgamesh, já que foi o primeiro a ser escrito e o que pode dar inspiração até mesmo para as mitologias que se seguiram. Hoje em dia o livro pode ser comprado pela Editora Martins Fontes. Assim como na Matemática é preciso aprender desde as unidades e dezenas, essa epopéia o levará ao mundo da antiguidade e te mostrará o fascinante mundo de deuses que formaram culturalmente diversos povos; grande sacada para escritores que buscam inspiração. Para os curiosos:

Introdução ao mito de Gilgamesh
Tabuletas traduzidas (em inglês)
Tabuletas traduzidas (Orkut)

Espero que tenha gostado, até a próxima!

A Pedra Encantada de Brisingamen

Um autor desconhecido e um livro com um título no mínimo curioso. Quem conhece a mitologia nórdica dificilmente deixaria escapar um livro envolvendo a pedra brisingamen; e foi o que ocorreu comigo. Alan Garner, autor do livro, é um escritor britânico de fantasia muito aclamado pelo público infantil, apesar de não gostar de ser conhecido simplesmente por "um escritor infantil", já que seus livros tem um conteúdo um tanto sombrio. Seus livros quase sempre são ambientados nos locais onde passou a infância, como Alderley e a planície de Cheshire (locais de grande importância no livro em questão). Sua bibliografia inclui além d'A Pedra Encantada de Brisingamen, A Lua de Gomrath, A Maldição da Coruja, Elidor, entre outros; apesar destes serem os únicos traduzidos. Philip Pullman, criador da trilogia Fronteiras do Universo, é um grande admirador de Garner, e garante que A Pedra Encantada de Brinsigamen é um "clássico da literatura infantil".

Após o misterioso prefácio, a trama se desenrola com os irmãos Colin e Susan, que vão passar um tempo na casa da ex-governanta de sua mãe. O local, isolado dos centros urbanos, tem um toque de serenidade, mas coisas estranhas começam a acontecer, como uma estranha mulher que insistiu loucamente em dar uma carona aos dois, mesmo sabendo que estavam perto de casa. A curiosidade das crianças é mais forte que a lendas acerca das misteriosas cavernas (e principalmente a sobre o "Mago"), assim elas não perdem tempo e decidem vasculhar cada fenda nos morros gritando Abracadabra. Nessa expedição infelizmente elas topam com estranhas criaturas descarnadas e sombrias que começam a perseguí-las. O azar acaba apenas quando Colin e Susan são salvos pelo tão grandioso "Mago", que por fim os levam para as profundas cavernas de Fundindélfia.

Essa estranha caverna guarda em seu coração cento e quarenta valorosos guerreiros, que adormecidos esperam pela batalha que se erguerá durante a volta de Nastrond, o grande espírito das trevas. Para que os guerreiros possam resistir ao tempo, um grande encantamento, tão poderoso que nada pode quebrá-lo, foi selado no coração de uma pedra, nomeada Fogofrio. Porém Cadellin, o "Mago", a perdeu, tudo graças a avareza de um fazendeiro. Colin e Susan, aflitos e ansiosos com a história, tomam para si a missão de encontrar e resgatar a pedra, mas para isso precisarão de muita coragem.

O tom usado no desenrolar da narrativa tende a deixar a trama parecendo previsível, mas só lendo até o fim para ficar surpreso e descobrir que o livro apresenta apenas um décimo do que poderia ser a história, dando um fim com um gostinho de "quero mais". Fiquei muito feliz ao descobrir que esse "quero mais" se encontra na sequência A Lua de Gomrath.

Para quem deseja muita aventura a base de fugas mirabolantes e anões desbravadores, A Pedra Encantada de Brisingamen é um prato cheio. Leitores de Crônicas de Nárnia adorarão, amantes de O Senhor dos Anéis talvez farão apenas comparações, mas o que vale é a criatividade da narração, por isso livro mais do que recomendado. Para quem deseja um pouco mais sobre:

Site com tudo sobre Alan Garner (não é oficial e está em inglês)

Até a próxima meus caros!

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Halflings

Halflings (ou eternizado pelo autor J. R. R. Tolkien como hobbit) são humanóides de estatura não superior a 90 centímetros e com pés terrivelmente peludos que podem ser considerados tão antigos quanto os homens. A palavra halfling vem do inglês half of something e foi usada justamente por hobbit ser um termo protegido por direitos autorais (há quem diga os criadores de Dungeons & Dragons). Dizem que os halflings são meio-homens e meio-elfos, outros afirmam que são uma outra evolução do Homo Sapiens, alguns ainda acreditam que essas criaturinhas são híbridas de anões, homens e elfos, mas nada é certo de onde vieram tais seres (isso era até um mistério para os leitores de Tormenta, já que eles supostamente vieram de um “portal místico”).

Por não serem muito fortes e não terem habilidades com a magia, os halflings não são facilmente encontrados em grupos de aventureiros; na verdade detestam qualquer coisa que possa tirá-los do sossego. Preferem ficar com sua vida farta a se arriscarem em troco de nada; os poucos que tem coragem (ou são obrigados) a participar de alguma jornada, logo se tornam ladinos, já que é a única função plausível e na qual eles têm facilidade (um forte esteriótipo criado para essa raça). Essa visão acerca dos halflings foi bem difundida entre os RPGistas e escritores, já que foi desse modo que Bilbo, Frodo, Sam, entre tantos outros hobbits, foram apresentados ao mundo em O Hobbit e O Senhor dos Anéis, livros que possuem o maior conteúdo sobre essa raça.

Com um senso de humor simples (lembrando o dos anões) e uma certa ligação com a natureza e as artes, os halflings são considerados seres extremamente sociáveis, podendo conviver com elfos, anões e até goblins (que os consideram irmãos de "trabalho"), mas a maioria ainda prefere manter certa distância, já que geralmente se sentem intimidados por outros seres "grandes". Suas maiores paixões são o conforto e uma boa terra lavrada, por isso preferem se instalar em regiões campestres, bem organizadas e cultiváveis, passando longe dos centros urbanos. Para o cultivo utilizam ferramentas antigas, já que não são simpatizantes de máquinas mais complicadas que um moinho de água.

Os halflings possuem um aspecto mais simpático do que bonito: bochechas vermelhas, bocas prontas para rir, olhos brilhantes e cabelos encaracolados. São criaturas muito festivas, que adoram músicas e se vestem com cores vivas. Uma curiosidade é que jamais usam sapatos, já que seus pés possuem uma sola mais resistente que a dos homens e é protegida por uma espessa camada de pêlos, e outra é que, pasmem, chegam a fazer cinco refeições por dia!

Um famoso hábito dos halflings, que tornou O Senhor dos Anéis famoso entre os hippies dos anos 70, é o fumo. Através de cachimbos, eles tomaram a queima de ervas como uma arte, chamando-as simplesmente de erva-de-fumo (nada mais do uma variação de nicotina).

Hoje em dia os halflings são conhecidos por todos, estando presentes em jogos online, diversos livros, como também em manuais de RPG. Para quem deseja aprofundar sobre essa raça, basta saber que os halflings tem origem no folclore britânico, de um personagem meio-homem chamado Hanner Dyn. Na Internet não há nada sobre ele, mas nada que uma biblioteca não resolva (basta verificar livros de mitologia anglo-saxã).

Até a próxima!

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A Dama de Shallot

Finalmente consegui mais um conto para colocar aqui no Falando de Fantasia; isso devido a criação de uma comunidade de escritores de fantasia e ficção de científica que visa unicamente a crítica e avaliação de contos, poesias, livros e textos fantasiosos em geral. O conto de hoje vai alegrar bastante os fãs do Rei Artur, já que trata de uma das personagens da história, e a todos que gostaram do estilo de narração da Ana Cristina, autora do texto. Infelizmente eu não posso reproduzir o conto no meu blog, já que as regras do Hyperfan (site onde o conto está hospedado) não permitem a publicação dos textos lá contidos em outros sites, assim deixo então apenas o link para que vocês possam ler direto do Hyperfan.

A Dama de Shallot - Ana Cristina

Espero que apreciem a leitura e a transposição melancólico do texto, algo bem diferente do que você escritor sobre Rei Artur por aí. Até mais!

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Tempo para Escrever

"Eu gosto de escrever, mas não tenho tempo!". Se eu recebesse um dólar para cada vez que escuto esta desculpa, seria uma mulher rica. Ninguém tem tempo para escrever. Escrever bem requer sacrifício, dedicação, trabalho duro e prática. Infelizmente prática requer tempo.

Meu sonho tem sido sempre o de escrever em período integral, mas por causa de um simples detalhe, este sonho está longe. Eu não tenho tempo livre e arranjar tempo para me dedicar à escrita é uma luta. Escrever durante o dia é quase impossível. Eu trabalho em período integral em programação de computadores e gasto muito do meu dia lidando com o tédio do escritório. No meio de chamadas telefônicas, papéis e problema com computadores meu impulso criativo desaparece.

Quase sempre eu chego em casa à noite, cansada, frustrada e geralmente tensa. A última coisa que eu desejo fazer é sentar em frente de um computador por umas horas a mais. Além disto, eu terei que ludibriar meu filho para ele jantar e convencê-lo que tomar banho é divertido. E estas são apenas duas das principais tarefas. Quando eu realizo isto, estou ainda cheia do trabalho e gasto o meu tempo jogando ou lendo histórias para o meu filho para relaxar. Quando ele vai finalmente dormir eu geralmente estou exausta, mas ainda quero escrever. Então, eu me vejo com duas opções: ou levanto umas horas antes na manhã seguinte, ou luto contra a exaustão e fico acordada. Desde que, há muito tempo atrás, fiz uma promessa de não assistir
o sol nascer, eu fico acordada e dedico o tempo entre as 10 horas da noite até uma hora da madrugada para escrever.

Durante estas horas eu desligo a TV, escuto música instrumental e, quando estou realmente séria, desligo a Internet. Deixar de navegar enquanto escrevo é difícil, mas se eu quero realmente atingir meus objetivos, tenho que fazer.

Quando eu dedico este período de tempo para escrever, eu também decido escrever todos os dias. Minha meta diária é de 1000 palavras (creio que mais ou menos duas páginas destas). Às vezes eu faço mais e outras vezes eu tenho sorte de atingir este número. Escrevo quando estou cansada ou doente. Escrevo quando estou sem inspiração e quando o mundo a minha volta esta caindo em pedaços. Com cada palavra eu mantenho o sonho de escrever em período integral brilhando na minha frente. Ele está encarnado em um cartão na minha mesa de trabalho que diz: "Mantenha a fé, mantenha a esperança viva". Não permito que eu mesmo arranje desculpas, porque se eu fizer, terminarei pegando um livro ou navegando na Internet, e minhas histórias ficarão esperando.

Eu ranjo os dentes toda a vez que ouço as palavras "Eu não tenho tempo para escrever". Especialmente quando eu vejo que as pessoas enviam infindáveis mensagens e gastam horas e horas em Chats. Quando ouço estas palavras eu gostaria de responder: "Você não tem tempo para escrever, mas eu acho tempo para escrever. E se eu posso achar tempo, qualquer um pode". Escrever todo dia pode não ser possível, especialmente para estudantes, mas assumir o compromisso de escrever 2 ou 3 dias por semana por uma hora por dia é uma possibilidade.

Eu seria capaz de apostar que há uma hora livre em cada dia. Desistindo de assistir aquele noticiário noturno (quem precisa deles?), ou aquele seriado, ou ainda aquela novela; liberamos uma hora. Sacrificando uma hora de sono liberamos uma hora. Existem 24 horas em um dia e eu estou certo que cada uma delas é usada para o trabalho, família ou outras responsabilidades. Não escrever porque não há tempo não é uma desculpa, é um modo claramente disfarçado de dizer "Eu não quero escrever!".

- Vicky McElfresh (tradução de Claudiney Martins para Fábrica dos Sonhos)

Achei interessante colocar este texto aqui, justamente pela temática: o enorme número de pessoas que deixam de escrever por acharem que não tem tempo para tal. Muitos escritores se imaginam nessas palavras; escrever tem se tornado um hábito difícil de manter, difícil a ponto de exigir certos sacríficios pessoais para evitar a morte de um grande sonho, que no caso é publicar um livro. Que fique esse texto apenas como uma mensagem para aqueles que já publicaram, os que lutam para escrever e aqueles sonhadores, que um dia irão de colocar suas idéias no papel.

sábado, 3 de novembro de 2007

Artefatos Mágicos

Espadas, adagas, lanças, arcos, esferas de rubi, capacetes, escudos e até um pedaço de pedra; tudo pode se transformar em um artefato místico, mesmo este não tendo poder algum. Armas mágicas, misteriosas e poderosas são ítens indispensáveis para quase todo livro de fantasia, como por exemplo O Senhor dos Anéis, cuja história gira em torno d'O Anel, e A Bússola de Ouro, onde a bússola consegue prever o futuro e guiar Lyra. A história do mundo também trouxe variantes de artefatos lendários muito interessantes, como a lança que perfurou Jesus e o Graal, famoso para os adoradores de Rei Arthur.

Nessa postagem trago à vocês uma lista bem sintetizada com alguns dos mais famosos ítens míticos que foram coletados de diversas lendas e histórias mitológicas. Devo ressaltar que são elementos que podem enriquecer uma narrativa fantástica e inspirar a criação de diversos outros objetos majestosos. Ou vocês acham que existiria o maior épico de Tolkien sem a lenda do anel Nibelungo?

Artefatos Mágicos - Parte 1

Acho que não está faltando mais nada. A Parte 2 da lista será mais divertida, pois colocarei artefatos mais contemporâneos, como a capa do Spawn, as esferas de Holy Avenger, a Zar'roc de Eragon e alguns ítens que fizeram a história dos jogos da linha Zelda. Portanto, até a próxima!

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Tengu

Ao contrário do que imaginava, o blog Falando de Fantasia está começando a crescer. Através do Google Analytics pude ver quantas exibições são feitas por dia e para meu espanto não são modestas. Até então criei a comunidade no Orkut, a fim de organizar alguns debates, mas agora, além disso, começarei a criar banners, com o intuito de divulgar o blog em outros sites experientes. Hoje, a pedido de um amigo meu, vou falar de uma criatura bizarra que saiu do folclore japonês, o Tengu!

Os Tengu (nome que significa cães celestiais) são criaturas sobrenaturais originárias do folclore japonês, possuindo traços budistas e xintoístas. Eles são bem conhecidos também como youkais (monstros-espíritos) e como shinto kami (espíritos e/ou deuses reverenciados). Eram tratados comos os protetores das montanhas e das florestas, embora fossem encaradas como demônios perturbadores diante o Budismo. No começo os tengu eram retratados como seres humanóides, com características de aves de rapina e grandes guerreiros das artes marciais, contudo isso mudou com o decorrer do tempo; seu bico deu lugar ao enorme nariz (que tem uma forte conotação cômica e sexual).

Acreditava-se que os tengu possuiam vários poderes sobrenaturais, entre eles a capacidade de mudar de forma, ventriloquismo, teletransporte e a habilidade singular de penetrar no sonho dos mortais. O tengu um guerreiro que busca causar desordem, castigando sacerdotes budistas que incorrem no pecado do orgulho, autoridades que usam seu poder ou sabedoria para adquirir fama e samurais que se tornavam arrogantes. Algumas fontes diziam que pessoas que apresentavam esse tipo de mau comportamento se tornavam tengu ao reencarnar. Os tengu antipatizam com aqueles que contrariam as leis do Dharma.

A termo "tengu" foi retirado do folclore chinês, de um monstro em forma de cão chamado tiângou, cuja aparência lembrava a de um cometa. O 23º capítulo do livro Nihon Shoki, escrito em 720, é tido como a primeira aparição do tengu na cultura japonesa. Nele conta que uma estrela cadente aparece e é identificada por um sacerdote budista como um "cão celestial". Agora é difícil dizer como um "cão celestial" pode se tornar um homem com traços de ave de rapina. Alguns estudiosos apoiam a teoria de que a imagem do tengu tenha sido baseada na da entidade hindu Garuda. As lendas sobre o Tengu eram particularmente fortes nos arredores do Monte Kurama, onde acreditava-se que ficava a morada do grisalho Sojobo, o rei dos tengu.

Existem lendas que misturam a ficção com a história verídica, é o caso do general Minamoto no Yoshitsune, que supostamente foi um dos alunos do rei dos tengu e com ele teria aprendido habilidades mágicas de esgrima. Outras ainda descrevem encontros entre tengu e o daimyo Kobayakawa Takakage, que teria conversado com um outro rei dos tengu ao pé do Monte Hiko. O papel do tengu mudou drasticamente com o passar das dinastias. Ele já foi tido como o demônio da raiva, possuidor de mulheres, fantasmas da arrogância, sequestrador de crianças e até protetor de crianças perdidas (!).

É fato que é uma das criaturas mais curiosas do folclore nipônico. Para quem deseja saber mais, há um artigo mais do que completo no Wikipédia (em inglês, é claro). Até a próxima, logo postarei alguns banners por aqui.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Sereias

Aproveitando o embalo da leitura de Odisséia e uma viagem de curto período no litoral, no qual eu retornei Quarta-feira passada, vou aproveitar para falar sobre as sereias, seres que nunca me despertaram nenhum interesse, mas que possuem seus encantos e mistérios, pois atingem uma grande gama de folclores, chegando até mesmo ao brasileiro.

Na Antiguidade, segundo a mitologia grega, as sereias eram seres metade mulher e metade pássaro (sendo confundida ou até chamada de hárpia); na Idade Medieval passaram a serem tratadas como híbridos de mulher e peixe (surgindo essa nova concepção primeiramente nas lendas nórdicas). É possível que o mito tenha surgido devido aos sirénios, animais com características bem próximas as das sereias nórdicas. Na mitologia grega elas habitavam os rochedos entre a ilha de Capri e a costa da Itália, e era fato que durante muito tempo acreditou-se que as sereias eram histórias concretas e não lendas. Eram conhecidas principalmente pelo seu canto, que atraíam homens e os levavam à morte no fundo no mar junto de seus navios, que colidiam com os rochedos. Ulisses pôde se salvar desse perigo no livro Odisséia, onde tapou os ouvidos dos seus marinheiros com cera e se amarrou ao mastro do navio. Desde então às sereias foram atribuídas a sensualidade e a atração feminina.

Segundo algumas crônicas, no ano de 558, alguns pescadores da Irlanda do Norte ouviram o canto de uma sereia e foram pescá-la com suas redes. Conseguiram resgatar uma sereia que se chamava Liban, filha de Eochaidh, na praia de Ollarbha, na rede de Beon, filho de Inli. Colocaram-a em um aquário, do mesmo modo que um peixe, e ali ela permaneceu por durante 300 anos. Durante esse tempo ela desejou ardentemente por sua liberdade. Uns monges piedosos resolveram libertá-la, mas antes a batizaram segundo o rito cristão, dando-lhe o nome de Murgen, que significa "nascida no mar". Depois ela passou a desejar sua morte, a fim de salvar sua alma. Desde o dia em que morreu passou a ser conhecida como a Santa Murgen, aparecendo com essa denominação em certos almanaques antigos e no santoral irlandês, sendo atribuídos à ela vários milagres. É estranho acreditar que existe uma sereia que é santa, são raros os casos que existe um cruzamento entre o paganismo e o cristianismo.

Em algumas descrições célticas antigas, as sereias tinham um tamanho monstruoso, apresentando quase dezoito metros de altura. Essas medições foram possíveis porque elas penetravam pelos rios e ainda assim podiam ser encontradas em lagos de água doce.

As sereias, dentro de suas múltiplas habilidades também podem trocar de forma. A sereia-hárpia personifica as tempestades e a morte, sendo encarregada de raptar os seres humanos para logo oferecê-los ao deus do inferno; diferente das sereias convencionais. Esse ser se mantém até o século XII nas representações das igrejas romanas.

Há também, alguns relatos que uma sereia pode desintegrar sua cauda de peixe e converter-se em uma mulher de aspecto completamente humano. Para Nancy Arrowsmith, quando viajam pelo mar, só podem tomar a forma de mulher-peixe ou golfinho e se o fazem pelo ar, aparecem como gaivotas ou águias. Sua altura habitual é de um metro e meio. São muito belas e adoram jóias e pedras preciosas. Como o resto das fadas, as sereias dormem durante todo o dia e somente é possível vê-las ao amanhecer ou no pôr-do-sol.

As sereias se encontram em todo o litoral do Mediterrâneo espanhol, mas também no Atlântico (aparecendo na costa brasileira também), pois seus principais palácios estão próximos das ilhas Açores. Raras vezes são encontradas em mar aberto, pois gostam de aproximar-se das desembocaduras dos rios e das rochas da costa.

O pente de ouro e o espelho são seus atributos mais comuns, mas em algumas partes da Europa também usam um véu, um bolso e um cinturão. A posse de qualquer desses objetos permite ter o controle sobre a sereia, podendo inclusive casar-se com ela. Dentro de suas características genéricas estariam o dom da profecia (que lhes permite proferir maldições), o encanto de sua voz (que lhes permite hipnotizar através dela) e a necessidade de possuir uma alma e filhos.

Muitas são as lendas (Livro de Enoch) que dizem que as sereias tem sua origem no mundo humano, nos dando a comprovação da maldição proferida por uma mãe à sua filha. Seriam as sereias, nada mais do que mulheres humanas em sua origem, mas que acabaram convertidas em espíritos da natureza. Esse fato seria bastante significativo, pois explicaria várias de suas reações: buscam o contato com o homem para casar-se com ele ou para matá-lo, buscam possuir uma alma que perderam quando passaram para esse estado sobrenatural, podem converter-se com facilidade em mulheres com membros e aspectos humanos, não manifestam nenhuma aversão aos símbolos cristãos e sua estatura é maior que das outras fadas.

O francês Benoít de Mallet publicou no ano de 1755 uma volumosa obra dedicada às sereias, onde recolheu todo o tipo de lendas relacionadas com elas, chegando a conclusão que eram seres de uma raça humana primitiva, praticamente desaparecida, assinalando sua presença desde a Terra do Fogo até Madagascar.

No folclore brasileiro temos a presença da sereia Iara, também conhecida como Mãe D'Água, que era uma índia guerreira que depois de matar seus irmãos, é jogada pelo seu pai no encontro do rio Negro com o rio Solimões, e assim, com ajuda dos peixes e da Lua, é transformada em sereia. É engraçado que o conteúdo sobre sereias é imenso, ao contrário do que eu imaginava. As lendas espanholas são inúmeras e faltou espaço para colocar alguns relatos de marinheiros e pescadores, mas acredito que o conteúdo aqui apresentado é o suficiente para qualquer escritor ter a mente um pouco aberta sobre essa criatura mitológica.

Espero que tenham gostado e que esse texto não tenha se tornado extenso demais, até a próxima!

sábado, 20 de outubro de 2007

Comunidade no Orkut

Para todos aqueles que desejam ultrapassar as barreiras do Blog para debater sobre fantasia, mitologia, mitos, contos e grandes escritores, aqui está o link da comunidade oficial do Falando de Fantasia no Orkut. Espero que essa atitude não tenha sido precoce e que seja bem recebida pelos leitores desse modesto Blog.

Até mais!

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Odisséia

Mitologia grega é uma das principais fontes de conhecimento para quem gosta de escrever fantasia, pois além de ser mais acessível que outras mitologias, é rica na questão filosófica da coisa. Deuses caóticos, palavras que valem mais do que ouro, honra, traição, ambigüidade e atos heroícos realizados por amor ou amizade. Esses são alguns elementos de muitas histórias que compõem esse imaginário greco-romano que marcou profundamente a história da humanidade.

Um grande poeta grego que registrou em palavras essas lendas e aventuras foi Homero. Ninguém sabe ao certo quem ele era, se realmente existira e se realmente escrevera seus épicos, mas é compreensível dizer que Ilíada e Odisséia foram obras que atravessaram o tempo e servem ainda hoje como referência literária. Destes dois, o que eu li e gostei mais, tanto pela abundância de aventuras, descobertas e seres fantásticos, foi Odisséia, livro que dá continuidade a guerra de Tróia.

Odisséia narra as desventuras de Ulisses (no grego Odisseu), quando este ao sair de Tróia, depois de vencida a guerra, regressa à sua Ítaca. Ao contrário de seus companheiros de guerra, Ulisses não retorna de imediato, pois uma tempestade o envolve e os tira da rota. É então o começo das aventuras de Ulisses, pois por cada ilha que acaba tendo de passar existe algum tipo de perigo a ser superado, como sereias, ciclopes, feiticeiras, monstros, tempestades e principalmente a fúria de Poseidon (e nem todos desafios são superados sem alguma perda, pois muitos marinheiros a serviço de Ulisses morrem, não sobrando nenhum no fim das contas, e muitos navios são destruídos, restando a Ulisses apenas restos de madeira). Enquanto isso, em Ítaca, muitos pretendentes, ao verem que possivelmente o rei não voltaria mais, aproveitam a situação para tentarem desposar a rainha Penélope.

Telêmaco, herdeiro de Ulisses, é jovem e sem treinamento nenhum (pois seu pai ficara ausente durante 20 anos em meio a guerra e aos acontecimentos que interromperam seu retorno), por isso é obrigado a assistir os pretendentes gastando toda a fortuna de Ulisses em grandes banquetes e bebidas. Laerte, pai de Ulisses, é velho demais para combater, por isso sofre e é obrigado a morar no campo.

Ulisses, que ao final de sua viagem foi confinado na ilha de Calipso, recebe a ajuda de Atenas e começa uma jornada de volta para casa, infelizmente o irado Poseidon ainda tenta atrapalhar seus planos. Com um barco feito de maneira rústica, Ulisses consegue atingir a ilha dos Feaces, cujo rei o recebe muito bem, e de lá chega por fim a sua pátria, Ítaca. Lá se vê obrigado a planejar sua vingança de maneira cautelosa, pois o número de pretendentes é grande, é então o início de um combate nas escondidas em busca do trono perdido.

É importante ressaltar que ainda hoje Ulisses simboliza o homem que busca superar inúmeros desafios em busca do que deseja. Livro recomendado para todos que desejam entender um pouquinho mais sobre o universo mitológico greco-romano; se não tiverem paciência para ler a versão original, dividida em 24 cantos, leia alguma adaptação primeiramente, valerá a pena do mesmo jeito.

Vazio

Aqui está minha primeira tentativa de escrever um conto, como quase ninguém o leu, e quem o fez não deu muito bola, vou aceitar de bom grado algumas críticas e sugestões. Como não tenho o que dizer a respeito de mim, desejo apenas uma boa leitura!

Vazio

A espada vermelha descansou na relva verde e macia. Roan, um mercenário reverenciado por sua sagacidade e braveza, estava reduzido a um pequeno homem, não em seu físico, mas em sua mente. Sentia que seu cérebro estava oco.

Sua vida era um mar de sangue, o que veio a apelidá-lo de "O Rubro". Sua rotina era reduzir castelos a cinzas, desfigurar guerreiros imortais, vingar reis furiosos e caçar seres inimagináveis, isso já por mera diversão. No entanto, bem no fundo de sua alma cor de rubi, sentia que havia algo de errado. Um vazio. Sim! Um vazio havia brotado em seu peito. Tristeza? Não, ele era um homem que sobrevivera incontáveis invernos, um homem temido por reinos, um semideus da guerra, um vencedor.

Sua cabeça se retorcia, buscando respostas que ali não estavam. Talvez se ele não tivesse dado ouvidos ao seu pai e tivesse aproveitado melhor sua juventude. Mas só “talvez”.

Roan sentiu nojo de suas armas. Sua espada que cortara centenas de pescoços, seu escudo que espremera tantos crânios e seu machado, que não tivera pena em retirar de muitos homens suas pernas e braços. Então um lapso final trouxe a memória de Roan um certo acontecimento que sempre evitava: a morte de uma família inteira através de suas mãos embriagadas. Uma morte desesperada e incontrolável, onde seu punho quebrou costelas como se fossem biscoitos.

Ira, raiva e medo. Angústia praguejada pelos deuses. Seria essa torrente de pensamentos um feitiço? Alguém o desejava morto? Muitos o desejavam. Muitos. Afinal, Roan era um mercenário, mutilava qualquer um a troco de moedas, virgens e terras. Não tinha tempo para amizades, muito menos para o amor. Mesmo odiando seu trabalho, não tinha escolha, só sabia manejar armas brancas. Ou era isso ou se tornaria um açougueiro, um fétido açougueiro. Seria motivo de chacota para todos que o desprezavam. "Lá vai o Roan, banhado de sangue de boi, contaminado por fezes de porco! Vai lá, grande pútrido Rubro".

O amor o teria salvado de tudo isso. Se tivesse dado mais tempo ao tempo. Se tivesse reparado nos olhares de Licya. Se tivesse pensado da mesma forma que estava pensando agora! "Inúteis reflexões que avisam a gente quando a vida já passou por cima!”.

Levantou-se, odiando mais do que tudo ele mesmo, desejando que esse sentimento, chamado arrependimento, fosse apenas uma ilusão e que não o levaria a lugar algum; fingiu que tudo estava bom para ocultar sua consternação. Seguiu adiante, procurando a próxima taverna. Queria agora encher um pouco a cara e espancar alguns maltrapilhos.

- Cezar Berger Junior

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Quimera

Há muito pouco a ser falado sobre a quimera, de certo modo não foi um ser mitológico que inspirou muitos escritores e artistas, mas tem sua devida importância na mitologia.

Na mitologia grega, era um fabuloso monstro com cabeça de leão, torso de cabra, cauda de dragão e que soltava fogo pela boca. Era oriunda da Anatólia, nascida da união entre o monstro Equidna (criatura metade mulher e metade serpente) e o gigantesco Tífon.

Outras lendas a fazem filha da hidra de Lerna e do leão de Neméia, ambos mortos por Hércules. A quimera foi criada pelo rei de Cária, sendo que mais tarde assolaria este reino e o de Lícia com o fogo que cuspia incessantemente, até que o herói Belerofonte, montado no cavalo alado Pégaso, dado por Atena, conseguiu matá-la. Sua representação plástica na arte cristã medieval era um símbolo do mal, mas com o passar do tempo, passou a se chamar de quimera todo monstro fantástico empregado na decoração arquitetônica.

Hoje, no nosso português, a palavra quimera significa produto da imaginação, fantasia, utopia, sonho. Já na Alquimia, uma espécie de mistura de química com misticismo, a palavra "quimera" é designada a uma espécie de criatura, que é uma fusão de um homem e um animal, que pode ser criada artificialmente através de certos experimentos bizarros (isso é bem apresentado no anime Full Metal Alchemist, talvez a única criação fantástica que use tal monstruosidade).

Espero que tenham gostado! E logo vem mais bestas!

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Centauros

Apenas para dar volta a sessão "bestiário", falaremos um pouco sobre os centauros, seres tão comuns ao imaginário da literatura e do cinema, mas de uma origem desconhecida pela maioria.

Na mitologia grega, os centauros eram seres fortes e brutais, metade homens e metade cavalos, filhos de Ixíon (ou Ixiom, ou ainda Ixão), rei dos lápitas, e de Néfele, a nuvem de chuva, à exceção de Folo de Quíron (ou Quirão), que tive outra origem e caráter menos selvagem, porém eram a personificação das forças naturais desenfreadas, da devassidão e embriaguez.

Monstros que representavam a identificação do ser humano aos instintos animalescos, seu mito foi, possivelmente, inspirado nas tribos semi-selvagens que viviam nas zonas mais agrestes da Grécia e sua história mitológica quase sempre associada a episódios de barbárie. Viviam nos bosques das planícies da Arcádia e dos montes da Tessália e teriam lutado contra Hércules, que os teria expulsado do cabo Mália. Durante as bodas de Pirítoo, rei dos lápitas, depois de embriagados com vinho, os centauros teriam tentado raptar sua noiva, gerando uma terrível batalha que terminou com alguns mortos pelo lápitas e outros que conseguiram fugir. Cenas da batalha entre os lápitas e os centauros foram esculpidas em baixorrelevos no friso do Partenão, que estava dedicado à sábia Atenea.

Diferentemente dos outros, Folo de Quírion foi instrutor e professor de Aquiles, Heráclito, Jasão e outros heróis. Nos tempos helênicos se relacionavam freqüentemente com Eros e Dioniso e durante o Renascimento, talvez para realçar seu caráter bestial, em suas representações só o busto era humano.

Na iconografia cristã os centauros aparecem como bestas infernais, tentadoras de donzelas. Centauros aparecem em alguns livros de fantasia como a série Harry Potter e as Crônicas de Nárnia.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Piratas

Piratas! Sim, eles sempre me fascinaram, antes mesmo de assistir Piratas do Caribe. Tudo começou com uma breve leitura d'A Ilha do Tesouro e d'As Aventuras de Tom Sawyer, dando uma volta por Peter Pan e terminando com as inúmeros estórias que ouvia sobre Barba Ruiva ou Barba Negra. Os piratas passaram a ser uma curiosidade mundial depois da vinda trilogia Piratas do Caribe, onde eles era mais que bandidos, eram heróis geniosos, destemidos e beberrões (isso sempre foi uma verdade)! Essa curiosidade só tende a aumentar pelo simples fato de que não encontramos muitos livros (acessíveis ) que contem como era o trabalho sujo desses lobos do mar; a mitologia então? Melhor não comentar! A aparição de Davy Jones e Kraken só me deixaram alucinado por querer ouvir mais daquelas lendas que podem se equiparar a qualquer outra mitologia.

Buscando pela internet, achei um artigo (e foi difícil), ainda que do Wikipédia, para dar uma introdução sobre os piratas. Vou tomar partido de procurar livros que me recomendaram e postarei aqui algumas lendas, sendo que a do Kraken foi postada nem no começo do blog. Leiam, apreciem e anseiem por mais um gole de Rum!

O primeiro a usar o termo pirata para descrever aqueles que pilhavam os navios e cidades costeiras foi Homero, na Grécia antiga, no seu livro Odisséia. Eles navegavam nas rotas comerciais com o objetivo de apoderarem-se das riquezas alheias, que pertencessem a simples mercadores, navios do estado ou povoações e mesmo cidades costeiras, capturando tudo o que tivesse valor (metais, pedras preciosas e até bens) e fazendo reféns, para extorquir resgates. Normalmente esses reféns eram as pessoas mais importantes e ricas para que, assim, o pedido de resgate pudesse ser mais elevado

Primeiramente a pirataria marítima foi praticada por gregos que roubavam mercadores fenícios e assírios desde pelo menos 735 a.C. A pirataria continuou a causar problemas, atingindo proporções alarmantes no século I d.C., quando uma frota de mil navios piratas atacou e destruiu uma frota romana e pilhou aldeias no sul da Turquia.

Na Idade Média, a pirataria passou a ser praticada pelos normandos (que atuavam principalmente nas Ilhas Britânicas, França e Império Germânico, embora chegassem mesmo ao Mediterrâneo e ao mar Morto), pelos muçulmanos (Mediterrâneo) e piratas locais. Mais tarde esta difundiu-se pelas colônias européias, nomeadamente nas Caraíbas, onde os piratas existiam em grande quantidade, procurando uma boa presa que levasse riquezas das colônias americanas para a Europa, atingindo a sua época áurea no século XVIII.

Do fim do século XVI até o século XVIII, o Mar do Caribe era um terreno de caça para piratas que atacavam primeiramente os navios espanhóis, mas posteriormente aqueles de todas as nações com colônias e postos avançados de comércio na área. Os grandes tesouros de ouro e prata que a Espanha começou a enviar do Novo Mundo para a Europa logo chamaram atenção destes piratas. Muito deles eram oficialmente sancionados por nações em guerra com a Espanha, recebendo uma carta de marca do governo e sendo chamados de corsários, mas diante de uma lenta comunicação e da falta de um patrulhamento internacional eficaz, a linha entre a pirataria oficial e a criminosa era indefinida.

As tripulações de piratas eram formadas por todos os tipos de pessoas, mas a maioria deles era de homens do mar que desejavam obter riquezas e liberdades reais. Muitos destes eram escravos fugitivos ou servos sem rumo. As tripulações eram normalmente muito democráticas: o capitão era eleito por ela e podia ser removido a qualquer momento. Eles preferiam navios pequenos e rápidos, que pudessem lutar ou fugir de acordo com a ocasião. Preferiam o método de ataque que consistia em embarcar e realizar o ataque corpo-a-corpo. Normalmente, não tinham qualquer tipo de disciplina, bebiam muito e sempre terminavam mortos no mar ou enforcados, depois de uma carreira curta, mas transgressora.

No auge, os piratas controlavam cidades insulares que eram paraísos para recrutar tripulações, vender mercadorias capturadas, consertar navios e gastar o que saqueavam. Várias nações faziam vista grossa à pirataria, desde que seus próprios navios não fossem atacados. Quando a colonização do Caribe tornou-se mais efetiva e a região se tornou economicamente mais importante, os piratas gradualmente desapareceram, após terem sido caçados por navios de guerra e suas bases terem sido tomadas. Alguns piratas ficaram com o seu nome na história, tal como Edward Teach, mais conhecido por Barba Negra. Mas, a pirataria não era só um problema europeu e americano: as embarcações de Xangai até Singapura, do Vietnã ao Japão e à China, e até as embarcações não muçulmanas da costa norte de África eram alvos de corso (sinônimo de pirataria).

Atualmente, a pirataria revela-se mais incidente no sudeste asiático e ainda nas Caraíbas, sendo os locais de ataque espaços entre as ilhas, onde os piratas atacam de surpresa com lanchas muito rápidas.

Os únicos sites que poderei recomendar são estes:

Tudo a pirataria (história e biografia dos principais piratas)
A vida dos piratas (formato de Wikilivro)

Pra quem gosta de jogos e quer se sentir na pele de um pirata, recomendo Skies of Arcadia. Espero que tenha gostado, até a próxima!

domingo, 30 de setembro de 2007

Aliane

Depois de um longo período árduo e triste sem postagens, voltarei com um conto apenas para quebrar o gelo. Infelizmente não consegui assistir o filme que eu gostaria muito de falar aqui, que é O Labirinto do Faúno, mas em breve conseguirei. O conto de hoje é de um colega meu da Escritores de Fantasia chamado Daniel Felismino, nele há a presença do oculto, do místico, boa pedida para quem gosta de uma fantasia mais na linha do terror. Eu aprovei, espero que aprovem também. Quanto a demora de postagens, estou preparando alguns assuntos pra esse começo de mês.

Aliane

Aliane segurava as mãos do rapaz com cuidado. Não sentia culpa por sua situação terminal e sim pena e desolação pelo seu estado e miséria. Sentia que os ossos do tórax do jovem estavam todos fraturados, numa perfeita exemplificação da fragilidade humana; a fraqueza era ao mesmo tempo tão física quanto mental e emocional. Dominados por sentimentos, os homens esqueciam a sua própria razão e decência, muitas vezes ignorando o primordial a si mesmos. A vida, por exemplo.

Os dois haviam tido o primeiro contato no meio do formigueiro humano que se formou na rua principal da pequena cidade. As festas anuais sempre traziam uma enxurrada de agitação, comércio, música e drogas para o local, arrastando emoções como o fundo do leito de um rio é levado numa forte enchente. João encontrava-se num pequeno trecho desse rio, numa corredeira de drogas e luxúria, onde as companhias eram mais variadas do que a quantidade de anéis de lata que se encontrava pelo chão. Agulhas, papelotes e cachimbos improvisados de diversos entorpecentes eram jogados por cima do muro das casas, para evitar qualquer confusão futura com a guarda municipal. Uns riam de tanta química e frenesi; outros estavam estáticos, dominando e aproveitando as reações que tomavam conta de seus nervos; outros caiam no chão, tremendo e chorando a dor dos miseráveis que só tinham a escolha entre a marginalidade e a marginalidade.

João cambaleou entre jovens risonhos e alegres, agitando copos e garrafas de bebida, com musica estridente berrando no mais alto volume, fazendo vibrar até o coração. Em meio àquela nuvem de gente, João viu uma moça relevante. Não tinha a beleza dos anjos nem a sedução dos demônios, mas tinha o instinto natural e a perfeição simétrica com que a natureza e os sonhos construíam seus frutos.

Perseguiu-a entre os corpos bêbados dançantes e o lixo pelo chão. Ela parecia ignorar sua existência e sumir entre os transeuntes, reaparecendo quando o jovem perdia a esperança de reencontra-la. Parecia que o fazia de propósito. Pelo menos era o que circulava na mente entorpecida e esverdeada pelas drogas de João. Andou tanto em seu percalço que acabou por sair da rua principal e cruzou por becos, estando Aliane sempre mais distante de João, por mais que corresse e saltasse por poças de água.

Cruzaram mais uma rua subindo uma leve inclinação gramada aonde Aliane, já tendo percebido seu perseguidor, riu e correu para a esquerda, sumindo da vista de João. O jovem deu sangue às pernas e aumentou a velocidade, temendo perder aquela visão. Aliane corria olhando para trás, rindo e desenhando uma nuvem etérea e azulada com seu corpo no meio da escuridão do local. João sentia que ela estava cada vez mais perto; tão perto que de azul agora tudo brilhava e irradiava num branco crescente que engolia a tudo que estava no raio de visão do jovem. Aliane pulou para o lado e para o alto, ascendendo risonha e brilhante como um panfleto colorido que é levado por uma golfada de ar. O jovem estendeu as mãos e balbuciou palavras suplicantes, pedindo para que voltasse; apesar de Aliane se afastar rumo às alturas, o branco crescente que vinha dela o encontrou e atingiu em cheio, fazendo com que seu coração parasse por alguns instantes, sua pele ficasse vermelha e seu corpo se contorcesse pela convulsão de razões inexplicáveis.

Caiu na beira da linha férrea. O corpo, quebrado por dentro, havia sido salvo de uma destruição maior por ter caído fora do caminho do trem. O trem, que a propósito, ficou passando ao seu lado durante seis minutos, num barulho repetitivo: tum-tum, tum-tum. Aliane sentou-se ao seu lado, observando seus olhos que pareciam brilhar por estar contemplando aquele simples rosto de menina-mulher, tão natural, complexo e extasiante que chegava a ser etéreo.

Aliane olhava com pena a sua condição. Não se sentia culpada pelo acidente; não pertencia a esse mundo e sim ao mundo dos sonhos e das divinações. Por vezes despertava paixões em quem a via. Paixões infantis e dignas de saudade para quem sobrevivia ou lembrava. A sua volta juntavam-se pessoas e ao longe se ouvia já o grito de sirenes.

“Parecia que ele corria atrás de alguém. Balançava os braços e gritava, como se chamasse”.
“Tsc. É um dos drogados da avenida. Devia estar vendo coisas”.
“Deve ter se suicidado. Nunca vi pessoa mais sozinha”.

Os comentários teciam uma teia de especulações sobre a morte. Aliane olhava para as pessoas a sua volta, mas as pessoas a sua volta não olhavam para ela. Não ressaltavam sua presença, muito menos perguntavam a ela algo, como é digno que se faça a alguma testemunha. Ignoravam sua presença no local, como uma quimera esquecida.

Começou a duvidar de sua existência.

- Daniel Felismino

Para quem desejar acompanhar o crescimento do recente blog dele, aqui está o link para o Ouro das Geraes. Até a próxima!

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A História Sem Fim

Cá estou eu novamente falando de mais uma obra do querido Michael Ende. Essa é a vez d'A História Sem Fim, livro que sou suspeito para criticar, já que é um dos meus preferidos. A leitura pode parecer infantil no início, mas o decorrer da trama te traga e te leva a um mundo fantasioso, tão rico quanto os contos de fadas. O fato do mundo não ser fixo, estar sempre em mudança, sofrer alterações pela incredibilidade das pessoas, acrescenta um toque mágico, quase como se você mesmo fosse Bastian, já que a situação do mundo deste é igual ao nosso. O livro é dividido em duas partes, sendo que há dois protagonistas: Atreyú, o garoto pele-verde que vive no mundo do livro, e Bastian, o menino que está fora do livro (por pouco tempo). A História Sem Fim atinge certa profundidade na sua segunda parte, quando Bastian é obrigado a lutar com seu lado negro. Luta no qual o torna maduro e confiante.

A história começa quando Bastian Balthazar Bux, um menino excluído e tímido, rouba um livro de uma pequena livraria. Na capa cor de cobre, com o desenho de duas cobras enroladas, está o título A História Sem Fim, Bastian então foge para a escola e encontra nela o refúgio para ler o curioso objeto. O livro conta sobre a jornada do jovem Atreyú em busca de uma cura para o Nada, um mal que está devorando o mundo de Fantasia. Ao desenrolar da trama, conforme Atreyú se depara com seres fantásticos ou malignos, Bastian, cada vez mais envolvida, se dá conta do elo que há entre ele e o livro cor de cobre, descobrindo então que é o único capaz de eliminar o Nada. Detalhe que o Nada não passa do distanciamento das pessoas dos seus sonhos.

Ao nomear a Imperatriz Criança de Filha da Lua, Bastian é levado ao mundo de Fantasia, onde no final das contas sobra apenas um grão. É essa parte que a aventura fica mais divertida. Bastian se vê diante da tarefa de reconstruir o mundo, moldando da forma como seu coração desejar. Mas como tudo não é tão simples, o lado negro e ambicioso do nosso jovem protagonista, que em seu mundo era corajoso e destemido, começa a entrar em cena, sendo mais uma barreira que deverá ser vencida, já que a cada minuto que ele permanece em Fantasia, mais um vestígio de quem ele realmente "é" é perdido e esquecido.

A história se alonga até o momento em que Bastian precisa decidir se quer ficar no mundo de Fantasia ou voltar ao mundo real, triste e sombrio, onde ele é rejeitado pelos colegas de escola e ignorado pelo pai. Não vou contar o final, pois não quero estragar a surpresa de quem vai ler!

É então de forma metafórica, assim como Momo e o Senhor do Tempo, que o livro termina, deixando no ar uma questão. Quantos de nós não já parou de sonhar? Quantos ainda acreditam em fábulas e estórias fantasiosas? O moderno urbanizado não nos permite isso. A sociedade nos empurra e não nos deixa admirar o que há de bom na vida. É isso que o Nada representa.

Quem assistiu o primeiro filme, ficará mais entusiasmado com o livro, pois existem muitos personagens e situaçõess novas. Quem ainda não leu, vai ficar de boca aberta e um pouco triste pela história infelizmente ter um final. Ah... Que saudade de voar em um Dragão da Sorte! Para quem desejar ler:

E-Book (em português e com ilustrações)

Até a próxima!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Fênix

A fênix (também chamada de fénix), a mais bela de todas as aves fabulosas, simbolizava a esperança e a continuidade da vida após a morte. Suas principais características são renascer de suas próprias cinzas e ter a capacidade de transportar cargas enormes (sendo que em algumas lendas, ela carrega até elefantes). Seu corpo é revestido de penas vermelhas, vermelhas-arroxeadas e douradas e seu tamanho aproximado ao de uma águia. Vinda da mitologia grega, alguns escritores acreditavam que ela viveria durante 500 anos (o quíntuplo da vida de um corvo), outros calculavam que seu ciclo de vida durava 97200 anos. Porém, era da superstição de todos, que quando a ave pressentia o fim do seu ciclo de vida, ela queimava-se em uma pira funerária, feita com ramos de canela, sálvia e mirra, e logo após renascia de suas próprias cinzas. Em um ato nobre, essa nova fênix pegava os restos de seu "pai", depositava-os em um ovo de mirra e os levava para a cidade egípcia de Heliópolis, onde as cinzas seriam colocadas no altar do Sol.

Essa vida longa e o seu dramático renascimento das próprias cinzas transformaram a fênix em símbolo da imortalidade e do renascimento espiritual. No século III d. C., o nefasto imperador romano Heliógabado decidiu comer carne de fênix, a fim de conseguir ser imortal. Por "engano" comeu uma ave-do-paraíso, que havia sido enviada em vez de uma fênix; pouco tempo depois foi assassinado.

É provável que os gregos tenham baseado a idéia da fênix na mitologia egípcia. Os egípcios adoravam a ave sagrada chamada Benu, semelhante a uma garça. O Benu, assim como a fênix, era ligado a rituais de adoração ao deus-sol Ra, em Heliópolis; a lenda egípcia original dizia que ele tinha surgido de um fogo ateado em uma árvore sagrada. A cultura chinesa também possui suas próprias versões da fênix, apesar delas não ressuscitarem das cinzas, as aves chamadas Feng (macho) e Huang (fêmea), que juntas representavam o poder imperial.

Ainda existem registros históricos onde as palavras de historiadores gregos, poetas e outros estudiosos descrevem a criatura mitológica chamada fênix:

"Existe outro pássaro sagrado, também, cujo nome é fênix. Eu mesmo nunca o vi, apenas figuras dele. O pássaro raramente vem ao Egito, uma vez a cada cinco séculos, como diz o povo de Heliópolis. É dito que a fênix vem quando seu pai morre. Se o retrato mostra verdadeiramente seu tamanho e aparência, sua plumagem é em parte dourado e em parte vermelho. É parecido com uma águia em sua forma e tamanho. O que dizem que este pássaro é capaz de fazer é incrível para mim. Voa da Árabia para o templo de Hélio, dizem, ele encerra seu pai em um ovo de mirra e enterra-o no templo de Hélio. Isto é como dizem: primeiramente molda um ovo de mirra tão pesado quanto pode carregar, então abre cavidades no ovo e coloca os restos de seu pai nele, selando o ovo. E dizem, ele encerra o ovo no templo do Sol no Egito. Isto é o que se diz que este pássaro faz." - Heródoto

"E a fênix, ele disse, é o pássaro que visita o Egito a cada cinco séculos, mas no resto do tempo ela voa até a Índia; e lá podem ser visto os raios de luz solar que brilham como ouro, em tamanho e aparência assemelha-se a uma águia; e senta-se em um ninho; que é feito por ele nas primaveras do Nilo. A história do Aigyptos sobre ele é testificada pelos indianos também, mas os últimos adicionam um toque a história, que a fénix enquanto é consumida pelo fogo em seu ninho canta canções de funeral para si" - Apolônio de Tiana

"Estas criaturas (outras raças de pássaros) todas descendem de seus primeiros, de outros de seu tipo. Mas um sozinho, um pássaro, renova e renasce dele mesmo - a fênix da Assíria, que se alimenta não de sementes ou folhas verdes, mas de óleos de bálsamo e gotas de olíbano. Este pássaro, quando os cinco longos séculos de vida já se passaram, cria um ninho em uma palmeira elevada; e as linhas do ninho com cássia, mirra dourados e pedaços de canela, estabelecida lá, inflama-se, rodeada de perfumes, termina a extensão de sua vida. Então do corpo de seu pai renasce uma pequena fênix, como se diz, para viver os mesmos longos anos. Quando o tempo reconstrói sua força ao poder de suportar seu próprio peso, levanta o ninho - o ninho que é berço seu e túmulo de seu pai - como imposição do amor e do dever, dessa palma alta e carrega-o através dos céus até alcançar a grande cidade do Sol (Heliópolis, no Egito), e perante as portas do sagrado templo do Sol, sepulta-o" - Ovidio

Alguns links para os curiosos:

Creation Myths - The Benu bird of Heliopolis (em inglês)
Ancient Egypt of Mythology (em inglês)
Phoenix (em inglês)

Hoje em dia alguns estudiosos afirmam que de fato a fênix egípcia existiu, mas provavelmente foi baseada na garça cinzenta (Ardea cinera) ou ainda em uma raça de garça extinta, mas semelhante a esta. Muitos livros de fantasia, jogos, animações, filmes e desenhos fazem diversas referências a esta antiga lenda, dando vida e mostrando que literalmente a fênix nunca morre.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A Viagem de Chihiro

Filmes. Ah sim, os filmes, até exato momento nunca comentei ou postei sobre filmes de fantasia. É um assunto um tanto delicado de ser abordado, mais pelo fato que a maioria desses filmes é mera adaptação de livros, como História Sem Fim, Crônicas de Nárnia e Senhor dos Anéis. Há um tempo atrás assisti uma maravilhosa animação que me fez ter outros olhos diante da cultura oriental, trata-se do longa-metragem A Viagem de Chihiro, dirigido por Hayao Miyazaki; o mesmo diretor que trouxe mais tarde para as telas a adaptação do livro O Castelo Animado, de Diana Wynne Jones.

O filme começa quando a família Ogino se muda para uma nova cidade. Chihiro, a filha do casal Akio e Yuko, uma menina de 10 anos, ao contrário dos pais, fica muito chateadas, pois não quer deixar seus amigos, sua escola e as lembranças sua infância para trás. Chegando a nova cidade, o pai decide pegar um atalho, o qual leva a família num local sem saída, onde há apenas um imenso prédio vermelho com um túnel que boceja como uma boca gigantesca. Atraídos pela curiosidade, a família Ogino segue caminhando através do misterioso túnel. Mesmo sendo contra a idéia dos pais, Chihiro acompanha-os.

Do outro lado do estranho prédio, os três encontram uma cidade misteriosa e deserta, habitada apenas por estranhas estátuas. Depois de andar alguns passos, Akio e Yuko, encontram um suculento banquete e, com fome, põem logo a devorar tudo. De repente, a noite começa cair e os dois transformam-se em porcos, diante dos olhos apavorados de Chihiro. Sozinha, a pequena menina se vê perdida diante de um mundo repleto de espíritos e seres fantásticos, habitantes de antigas lendas e superstições. Por ventura ela encontra um misterioso jovem chamado Haku. Ele ensina a Chihiro o melhor caminho para se chegar até a bruxa Yubaba, a dona da casa de banhos, a fim de conseguir um emprego.

A feiticeira revela que todos os humanos que entram em seus domínios são transformados em animais, antes de serem devorados, como foi o caso do casal Ogino. Aqueles que não têm o triste destino são obrigados a trabalhar, caso contrário são condenados à morte. Sem alternativa, a menina faz um trato com Yubaba para trabalhar na casa de banhos, renunciando sua vida e passando a se chamar Sen.

É aí que a aventura começa, pois Chihiro precisa encontrar suas lembranças e salvar seus pais, para assim fugir da cidade. E para isso contará com seus novos amigos, incluindo um estranho chamado de Sem Face. A Viagem de Chihiro é um filme para todas as idades, que mostra o significado da amizade e do amor. Portanto procure o filme, pois em qualquer locadora você pode achar. Garanto essa mistura de Alice no País das Maravilhas com cultura oriental te trará uma outra visão do que é fantasia.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

O Último dos Arquimagos

Agradeço ao escritor e diplomata Jorge Tavares, autor da saga A Guerra das Sombras, por doar esse excelente conto, com uma estória no mesmo universo do seu livro. Vale aproveitar a situação para ressaltar que no dia 15 de Setembro ocorrerá o lançamento oficial do segundo livro da saga, O Livro de Ariela.

O Último dos Arquimagos

(A seguinte história passa-se cerca de dois mil anos antes dos eventos narrados em "A Guerra das Sombras")

I

“Glória ao antigo império que tanta luz trouxe ao mundo. Ó sol que já está se pondo, ainda agarro-me a sua luz. Pois que será de nosso povo mergulhado na escuridão?” (Tenari Ademos)

Naquele dia o sol queimou mais uma vez, amaldiçoando as terras áridas que circundam essas ruínas. O domo da velha catedral finalmente desabara por completo na noite anterior. Agora a praça central estava totalmente cercada de escombros, à exceção do imponente prédio dos arquivos, nosso maior tesouro. O povo estava cada vez mais aterrorizado. Antes fosse só a escassez de água e de comida que os tornasse melancólicos. Mas infelizmente havia algo mais...

Terminei de atravessar a praça silenciosa e entrei no prédio central. Um homem esperava-me.

— Magistrado, há algo que precisa ver. Uma mensagem de Etaerosaiod.
— Compreendo. Venha comigo, Aemar.

Seguimos pelos corredores da grande biblioteca, resquícios de uma civilização que decaía a cada momento. A visão dos tomos incontáveis me deixava cada vez mais melancólico, conforme as possibilidades de defender aquele tesouro tornavam-se mais insignificantes. Aemar, ao contrário, tinha o olhar esperançoso. Por muitos dias aguardamos essa mensagem, esse sopro de esperança. E agora, finalmente, ali estava a minha frente aquele papel, portador inocente do nosso destino.

Cheguei a meu gabinete que ficava no último pavimento. Uma larga janela desenhava-se atrás de minha mesa. A outrora gloriosa Roduan estava agora reduzida a escombros e ruínas, que se estendiam por uma área considerável. A exceção era a cidade nova, um conjunto de habitações simples construídas ao redor do prédio central em que me encontrava. Muralhas circundavam as construções recentes, protegendo-as. Distraí-me ao observar aquela paisagem triste, ponderava sobre o passado, sobre as histórias de guerra. Aemar ansiava-se com isso, pois ele desejava saber, precisava saber! Enquanto isso, o papel repousava em minhas mãos, sem que eu lhe desse a devida importância.

— Percebi sua ansiedade, Aemar. Não se preocupe. Vou ler a mensagem agora. Mas não espere demais de nossos amigos do norte. Eles têm seus próprios problemas, você sabe.
— Eu compreendo. E obrigado, Magistrado.

Percebi pelo tom de sua voz que minhas palavras não conseguiram acalmá-lo. Li o texto que a mensagem continha. Li vagarosamente todas as linhas, procurando apreender cada partícula de significado. No final, porém, vi que a mensagem era bastante simples, embora fosse muito surpreendente.

— Magistrado, e então?
— De fato, um exército vem do norte. Passaram ao largo de Tenari Aquinos.
— A terceira legião? Então é verdade? Eles vêm em nosso auxílio! — exclamou o pobre homem tomado de um intenso júbilo.
— Não seja tolo. Há muito que não existe terceira legião. Os reforços não são nossos, mas sim do inimigo. Parece que são cerca de dez mil homens. Pretendem nos massacrar.

Aemar nada disse em resposta, tamanha foi sua surpresa.

[...]

- Jorge Tavares

Existem mais três partes que infelizmente não couberam nessa postagem, mas basta clicar aqui para saberem sobre o final! LEIAM, pois vale a pena cada palavra. Para quem deseja saber mais sobre as obras de Jorge Tavares, basta acessar o site e o blog oficial d'A Guerra das Sombras.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Papai Noel

Já há algum tempo não posto mais sobre criaturas mágicas e misteriosas, mas ontem, depois de assistir ao filme Expresso Polar, lembrei vagamente de uma vez quando ouvi falar da verdadeira origem da lenda do Papai Noel. Pesquisei um pouco sobre o assunto na Internet e decidi colocá-los aqui.

A lenda do Papai Noel foi inspirada em uma pessoa real, mais exatamente São Nicolau, que viveu há muitos séculos atrás. Embora tenha sido um dos santos mais populares do cristianismo, atualmente poucas pessoas conhecem sua história. Ele viveu em Petara(Patara), região na Ásia Menor, onde hoje existe a Turquia. A história diz que ele nasceu no ano de 350 e viajou para o Egito e Palestina ainda jovem, onde se tornou bispo. Durante o período da perseguição aos Cristãos pelo Imperador Dioclécio, ele foi aprisionado e solto posteriormente pelo sucessor Constantino, o Grande.

Em meados do século VI, o santuário onde foi sepultado transformou-se em uma nascente de água. Em 1087 seus restos mortais foram transportados para a Cidade de Bari na Itália que se tornou um centro de peregrinação em sua homenagem. Milhares de igrejas na Europa receberam o seu nome e a ele foram creditados vários milagres. Uma das lendas conta que ele salvou três oficiais da morte aparecendo para eles em sonhos.

Sua reputação de generosidade e compaixão é melhor exemplificada na lenda que relata como São Nicolau salvou da vida de prostituição três filhas de um homem pobre. Em três ocasiões diferentes o bispo arremessou uma bolsa contendo ouro pela janela da casa da família abastecendo, desta forma, cada filha com um respeitável dote para que pudessem conseguir um bom casamento. São Nicolau foi escolhido como o santo patrono da Rússia, da Noruega e da Grécia. É também o patrono das crianças, dos comerciantes e dos marinheiros.

A transformação de São Nicolau em Papai Noel começou na Alemanha entre as igrejas protestantes; sua imagem passou definitivamente a ser associada com as festividades do Natal e as costumeiras trocas de presentes no dia 6 de Dezembro (dia de São Nicolau). Como o Natal transformou-se na mais famosa e popular das festas, a lenda cresceu. Em 1822, Clement C. Moore escreveu o poema A Visit from St. Nicholas, retratando Papai Noel passeando em um trenó puxado por oito pequenas renas, o mesmo modo de transporte utilizado na Escandinávia (onde, por um acaso, existia um mago bondoso que vivia na floresta e na época de Natal presenteava as crianças comportadas), usando barba branca e com bochechas rosadas. O primeiro desenho retratando a figura de Papai Noel como conhecemos nos dias atuais foi feito por Thomas Nast e foi publicado no semanário Harper's Weekly no ano de 1866.

Papai Noel, com o passar do tempo, tornou-se símbolo POP, sendo o Natal uma tradição em muitos locais do mundo. Em alguns livros de fantasia ele até dá as caras, como n’As Crônicas de Nárnia. É uma infelicidade que nos tempos atuais as épocas natalinas sejam apenas mais uma contribuição para o capitalismo exacerbado. Aqui seguem alguns links interessantes:

Ilustrações do Papai Noel por vários artistas (de 1866 à 1931)
Ilustrações de Thomas Nast no Harper's Weekly
São Nicolau de Mira - Wikipédia

Até a próxima!

sábado, 8 de setembro de 2007

Chiaroscuro

Aqui segue esse conto fabuloso de teor sensual, exótico e misterioso, recheado de tensão e ambigüidade, escrito por uma colega da Escritores de Fantasia. De acordo com seu blog, Chiaroscuro é o estilo de pintura do final do Renascimento e do Barroco que valoriza do jogo de contrastes entre luz e sombra. Deliciem-se com o Bacalhau e o Vinho do Porto de Ana Cristina!

Chiaroscuro

A meio-elfa andava confiante pela floresta. Conhecia todos os caminhos e todas as trilhas. Reconhecia os pássaros pelo canto, as árvores pelo cheiro. A temperatura era tão agradável que, apesar do inverno, podia se enganar achando que a primavera havia chegado mais cedo. Nem parecia que essa excursão era para aprender certas artes mágicas obscuras que lhe foram negadas por seus ancestrais e que ela precisaria para poder vingar aqueles que amava.
Caminhou, a cabeça erguida. Ela iria quebrar a regra que proibia o ensino da Necromancia para aqueles que tinham sangue mestiço.

Escuridão. Calor. Um útero primordial, feito de quentura e negrume, envolto em caos organizado. Consciências que deslizam, unindo-se brevemente. Tocam pensamentos alheios, partilham as experiências de seu mundo escuro e calmo.
No Plano Sombrio, existem poucas regras. Talvez só uma realmente importe.
Não tocar. Jamais encostar a sua consciência em algo que não seja da matéria negra e fluida, morna, tranqüila e imutável que é a sombra.

Quando chegou ao lugar certo para a invocação, a noite já se aproximava. Não havia mais luz solar, o mundo paralisara-se naquele estranho tempo que não existe, entre o dia e a noite. O crepúsculo iria lhe dar tempo suficiente para preparar o encantamento necessário.
Armou o pequeno acampamento. Despiu-se completamente, tentando ignorar o frio que arrepiava a pele nua. Armou-se com a adaga de prata e caminhou determinada até a pedra negra em forma de porta, localizada no meio da clareira.
Começou a cantar.
Contato, afastamento. Fluidez, escuridão. Sombra não tinha consciência de há quanto tempo vivia na plenitude do seu plano. Um fisgão, algo incompreensível. Estava sendo puxado, arrancado, expulso do útero sombrio que habitava desde sempre. Não gritou por desconhecer a utilidade do som. Na massa negra do Plano Sombrio, um pequeno buraco formou-se onde Sombra estivera, preenchido lentamente pela constante fluidez da escuridão.

A canção terminou no momento em que a realidade gritou. O rasgo-fenda fechou-se sobre si mesmo. Ela não via isso, apenas sentia, os olhos fechados, concentrada no encantamento que fazia pela primeira vez. Quando o último som extinguiu-se, teve coragem para abrir os olhos, a clareira estava tomada por uma escuridão informe, e um calor difuso. Fortalecendo a voz, comandou.

- Tome forma, ó Sombra que conjurei, e atenda meu pedido.

O manto negro concentrou-se a sua frente, ela conseguiu ver novamente na luz fraca das estrelas da noite sem luar.

Mesmo aquela claridade tão mínima incomodava Sombra. A ordem da criatura pálida a sua frente era irresistível, e ele não tinha como desobedecer. Tomou uma forma levemente parecida com a daquele vulto branco, tentando entender o que estava acontecendo. Ninguém nos seus contatos primordiais havia explicado-comentado aquilo. Para obedecer a segunda ordem, quebrou a única regra que conhecia. Estendeu sua massa escura e tocou a consciência/corpo daquele estranho ser.

Choque. Dor. Confusão. Espanto. Espasmo. Orgasmo. As sensações percorriam os dois corpos. Tremiam, ela na maciez sólida da carne. Sombra ondulava, a fluidez sombria parecendo água agitada pelo vento. Tornaram-se um só.

Assim começou o longo aprendizado da meio-elfa.

Por meses, sua residência foi aquela clareira. Os dias pouco importavam, pois as sombras só podiam existir a noite. Gradativamente, o conhecimento da manipulação de tudo o que é contrário à luz e ao sol foi se tornando seu, e ela mudava. Seus olhos tornavam-se mais frios, mais calmos, parados. Sombra também mudara. A forma humanóide já lhe era confortável e aprendera a responder aos pedidos e estímulos da criatura tão pálida. Uma noite, a moça falou:

- Ó Sombra, me ensine a magia mais mortal, a Palavra que mata.
Um sibilo, sussurro sombrio e sinistro, surgiu da Sombra.
- Para... que?
Sentiu um sobressalto.
- Você... fala?
- Sim. Aprendi. Vezes. Toquei. Sua mente. Para que?
Punhos cerrados e olhos enevoados, ela respondeu.
- Para matar os que mataram os meus.
As estrelas sumiram, e a escuridão pareceu emanar de Sombra.
- Ensina. Somente se. Entregue-se.

Sombra havia tocado a consciência e a inconsciência da mestiça.Aprendera sua língua, padrões de comportamento. E também absorvera paixões, desejos, sensações desconhecidas. O tempo de aprendizado se esgotava, em breve voltaria ao caos de onde emergira. E precisava saber. Ela hesitou por instantes. Mas não durou muito sua hesitação.Abriu os braços e deixou cair o manto que a envolvia. Ficou ali parada, imóvel. Esperando que a sombra a envolvesse, como seu calor inesperado. A imagem sensorial que tinha associado ao negrume era a do frio congelante da noite. Mas o toque daquela Sombra era diferente. Tinha calor, e a consistência de algo fluído, a prendendo em um abraço que parecia eterno.

Ouviu a voz que soprou em seu ouvido, sentiu o hálito fresco da criatura, vinda de um outro plano, atendendo seu chamado. Sabia ser proibido o contato físico com seres extra-planares, mas como podia recusar?

Pendeu a cabeça para trás, olhos fechados, apenas sentindo o êxtase e a agonia que acompanhavam cada toque do amante sombrio que escolhera para si. Acompanhava o rastro de calor do caminho que a matéria escura percorria na pele clara, arrepiada de prazer. Gemia alto quando uma parte mais sensível do seu corpo era tocada. Estava imersa nas sensações.

Sombra sabia, pelo contato com a consciência, o que daria prazer à criatura alva que estava ali, nos seus braços. Mas não podia esperar pelo próprio êxtase, pelas estranhas ondas que tremulavam em sua matéria ao roçar na pele. A tensão crescia. Algo deveria acontecer; Sombra desistiu de sua forma humanóide, e na sua consistência fluida, cobriu toda a mulher, tocando-a totalmente, em todo o corpo. Abafou seus gemidos, penetrou em seu corpo, tornaram-se um.

Ela acordou sozinha, nua, no meio da clareira. Não havia sinal de nada do que acontecera. Perguntou-se se não teria sido apenas um sonho. Apenas a memória de um novo feitiço dizia que não. Sentiu-se triste, como se perdesse algo para nunca mais recuperar. Abraçou seus próprios ombros e permitiu-se um momento de nostalgia, lembrando do toque quente e leve do ser que invocara. Mas o momento passou, e ela seguiu em seu caminho.

Escuridão, caos. Rigidez, deformação. Regras foram quebradas. Toque em criaturas de pele. Profanação! A sempre tranqüila massa escura do Plano Sombrio agitava-se, convulsiva, ao sentir na sua consciência o que Sombra fizera. Não foi punido por não existirem castigos ali. E mesmo que tivesse sido, para ele valeria a pena. Tornou-se exceção, Sombra que sentia. Treva que poderia um dia seguir aquela a quem tocara.

- Ana Cristina

Quem deseja acessar mais contos da Ana, seus blogs são Doces Pensantes e Cubo dos Sonhos.