segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Sereias

Aproveitando o embalo da leitura de Odisséia e uma viagem de curto período no litoral, no qual eu retornei Quarta-feira passada, vou aproveitar para falar sobre as sereias, seres que nunca me despertaram nenhum interesse, mas que possuem seus encantos e mistérios, pois atingem uma grande gama de folclores, chegando até mesmo ao brasileiro.

Na Antiguidade, segundo a mitologia grega, as sereias eram seres metade mulher e metade pássaro (sendo confundida ou até chamada de hárpia); na Idade Medieval passaram a serem tratadas como híbridos de mulher e peixe (surgindo essa nova concepção primeiramente nas lendas nórdicas). É possível que o mito tenha surgido devido aos sirénios, animais com características bem próximas as das sereias nórdicas. Na mitologia grega elas habitavam os rochedos entre a ilha de Capri e a costa da Itália, e era fato que durante muito tempo acreditou-se que as sereias eram histórias concretas e não lendas. Eram conhecidas principalmente pelo seu canto, que atraíam homens e os levavam à morte no fundo no mar junto de seus navios, que colidiam com os rochedos. Ulisses pôde se salvar desse perigo no livro Odisséia, onde tapou os ouvidos dos seus marinheiros com cera e se amarrou ao mastro do navio. Desde então às sereias foram atribuídas a sensualidade e a atração feminina.

Segundo algumas crônicas, no ano de 558, alguns pescadores da Irlanda do Norte ouviram o canto de uma sereia e foram pescá-la com suas redes. Conseguiram resgatar uma sereia que se chamava Liban, filha de Eochaidh, na praia de Ollarbha, na rede de Beon, filho de Inli. Colocaram-a em um aquário, do mesmo modo que um peixe, e ali ela permaneceu por durante 300 anos. Durante esse tempo ela desejou ardentemente por sua liberdade. Uns monges piedosos resolveram libertá-la, mas antes a batizaram segundo o rito cristão, dando-lhe o nome de Murgen, que significa "nascida no mar". Depois ela passou a desejar sua morte, a fim de salvar sua alma. Desde o dia em que morreu passou a ser conhecida como a Santa Murgen, aparecendo com essa denominação em certos almanaques antigos e no santoral irlandês, sendo atribuídos à ela vários milagres. É estranho acreditar que existe uma sereia que é santa, são raros os casos que existe um cruzamento entre o paganismo e o cristianismo.

Em algumas descrições célticas antigas, as sereias tinham um tamanho monstruoso, apresentando quase dezoito metros de altura. Essas medições foram possíveis porque elas penetravam pelos rios e ainda assim podiam ser encontradas em lagos de água doce.

As sereias, dentro de suas múltiplas habilidades também podem trocar de forma. A sereia-hárpia personifica as tempestades e a morte, sendo encarregada de raptar os seres humanos para logo oferecê-los ao deus do inferno; diferente das sereias convencionais. Esse ser se mantém até o século XII nas representações das igrejas romanas.

Há também, alguns relatos que uma sereia pode desintegrar sua cauda de peixe e converter-se em uma mulher de aspecto completamente humano. Para Nancy Arrowsmith, quando viajam pelo mar, só podem tomar a forma de mulher-peixe ou golfinho e se o fazem pelo ar, aparecem como gaivotas ou águias. Sua altura habitual é de um metro e meio. São muito belas e adoram jóias e pedras preciosas. Como o resto das fadas, as sereias dormem durante todo o dia e somente é possível vê-las ao amanhecer ou no pôr-do-sol.

As sereias se encontram em todo o litoral do Mediterrâneo espanhol, mas também no Atlântico (aparecendo na costa brasileira também), pois seus principais palácios estão próximos das ilhas Açores. Raras vezes são encontradas em mar aberto, pois gostam de aproximar-se das desembocaduras dos rios e das rochas da costa.

O pente de ouro e o espelho são seus atributos mais comuns, mas em algumas partes da Europa também usam um véu, um bolso e um cinturão. A posse de qualquer desses objetos permite ter o controle sobre a sereia, podendo inclusive casar-se com ela. Dentro de suas características genéricas estariam o dom da profecia (que lhes permite proferir maldições), o encanto de sua voz (que lhes permite hipnotizar através dela) e a necessidade de possuir uma alma e filhos.

Muitas são as lendas (Livro de Enoch) que dizem que as sereias tem sua origem no mundo humano, nos dando a comprovação da maldição proferida por uma mãe à sua filha. Seriam as sereias, nada mais do que mulheres humanas em sua origem, mas que acabaram convertidas em espíritos da natureza. Esse fato seria bastante significativo, pois explicaria várias de suas reações: buscam o contato com o homem para casar-se com ele ou para matá-lo, buscam possuir uma alma que perderam quando passaram para esse estado sobrenatural, podem converter-se com facilidade em mulheres com membros e aspectos humanos, não manifestam nenhuma aversão aos símbolos cristãos e sua estatura é maior que das outras fadas.

O francês Benoít de Mallet publicou no ano de 1755 uma volumosa obra dedicada às sereias, onde recolheu todo o tipo de lendas relacionadas com elas, chegando a conclusão que eram seres de uma raça humana primitiva, praticamente desaparecida, assinalando sua presença desde a Terra do Fogo até Madagascar.

No folclore brasileiro temos a presença da sereia Iara, também conhecida como Mãe D'Água, que era uma índia guerreira que depois de matar seus irmãos, é jogada pelo seu pai no encontro do rio Negro com o rio Solimões, e assim, com ajuda dos peixes e da Lua, é transformada em sereia. É engraçado que o conteúdo sobre sereias é imenso, ao contrário do que eu imaginava. As lendas espanholas são inúmeras e faltou espaço para colocar alguns relatos de marinheiros e pescadores, mas acredito que o conteúdo aqui apresentado é o suficiente para qualquer escritor ter a mente um pouco aberta sobre essa criatura mitológica.

Espero que tenham gostado e que esse texto não tenha se tornado extenso demais, até a próxima!

4 comentários:

Daniel Felismino disse...

Riquissimo artigo.
Aliás, como você falou sobre a Iara, fico aqui uma recomendação minha: assistam no youtube o video "Juro que vi - Iara" é uma animação brasileira muito boa.

Abraços.

Luiz Pires disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luiz Pires disse...

Olá,
faço parte de um fanzine sobre o fanstástico na literatura e nas artes e, procurando inspiração (por assim dizer) acabei vindo parar aqui.

Adorei o apreço que você tem ao criar as postagens, a net está cheia de blogs mal construídos com textos ruins e, ao menos nesse critério, seu blog é referência para nós.

Gostaria de linkar a sua página no Blog do nosso fanzine ( http://fabulariozine.blogspot.com ) você aceitaria uma troca de "banners"?

Do mais, ficam os parabéns pelas postagens e a certeza de que eu continuarei visitando este rico espaço!

Luiz

leandro disse...

so pra completar,na mitologia grega tambem haviam mulheres metade peixe,eram as oceanidas,as nereidas e as lamias marinhas